15 de agosto de 2009

Crônica

Por Gildazio Vieira

Futebol Nas Tabocas

Gilberto tinha acabado de chegar de Brasília, o País vivia a euforia do tri-campeonato de futebol, dizia ele todo entusiasmado ter visto os jogadores desfilando na Avenida W3 e na Esplanada dos Ministérios. apertou a mão do Tostão que na intimidade o chamava de “Tusta”.
De volta ao Sertão, quis logo montar um time, consultou os principais jogadores da época, Tábua Lascada, Branco, Dodô, Vavá, etc. e em pouco tempo o time estava montado e recebeu o nome: Mato Grosso Futebol Clube (MGFC) ele mesmo técnico e juiz e depois de muitos treinamentos chegou o dia do primeiro desafio, íamos jogar contra as Tabocas, digo íamos porque, eu, irmão do técnico, tinha o meu lugar meio tempo somente, mas tinha.Subimos a Serra Geral, o técnico dando as últimas instruções e estratégias para o evento chegamos e fomos recebidos pelo técnico anfitrião com a frieza peculiar dos adversários e imediatamente fomos fazer o reconhecimento do campo de futebol, tinha um bom tamanho por se tratar de uma região montanhosa, mas...do lado norte depois da metade do campo tomando toda sua largura uma imensa ladeira tão íngreme que um carro só subiria na primeira marcha.Nós tínhamos 4 ou 5 torcedores, eles, claro, inúmeros e dentre eles as meninas que nos xingavam mesmo antes de começar o jogo, chamei Valin e fomos ao encontro delas, chamei uma de “bonita” ela disse: mas não chega pra seu bico, eu respondi: mas chega pro bico dos urubus e o juiz apitando chamando os jogadores para o meio do campo, o sorteio seria realizado, Euri, o capitão da equipe escolheu atacar primeiro justamente para o lado da ladeira, eu falei para o técnico: olha, acho melhor eu entrar no segundo tempoO primeiro tempo acabou, zero a zero, 15 minutos de pausa para recuperar o fôlego e eu me preparando pra entrar já escutando os xingamentos, coisas horríveis, inadequadas para tímpanos sensíveis, cabeludo viado é o único xingamento que posso colocar aqui, os demais. Vixe!!!
O Segundo tempo começa, bola vai bola vem, Branco arriscava chutar de longe a bola fazia curva e ia parar nos galhos das árvores, mas…de repente Dodô me serve uma bola redondinha, no jeito de matar nos peitos, colocar no chão e encher o pé, mas, não tive essa competência, matei-a com a mão mesmo, os adversários gritaram, o juiz fez vistas grossas eu fechei os olhos e mandei de direita no ângulo direito do gol só abri os olhos quando estava no ar suspenso pelos meus companheiros, os adversários reclamavam, o Gilberto ameaçava expulsar, convém dizer que não existiam cartões, nem amarelo nem vermelho, a advertência e expulsão eram verbalmente, depois seguramos o jogo até o fim, o juiz dá o apito final e… ganhamos!!!!
Era só alegria e fomos bebemorar no boteco, até quem não bebia cachaça esse dia bebeu, como Antonio Tochinha, tomou umas 3 e já começou a falar difícil e trocar nomes, num dado momento chamou Jesus de Genésio.Depois de Bebermos quase toda a cachaça do boteco, até o santo acho que ficou meio grogue devido às oferendas clássicas, fomos procurar nossas montarias, eu peguei o Pindolosca, que já estava esperto, sabia que ia voltar, cavalo lerdo nas idas e afoito nas voltas! Acho que ele não era lerdo, era esperto, até hoje me dói no coração quando me lembro que ele foi ser comido pelos japoneses, grande Pindolosca! Companheiro fiel da minha adolescência.
Todos montados e me lembro perfeitamente da hora que saímos de lá, hora não, o momento, o sol tinha acabado de se pôr e deixou no céu do sertão um vermelhidão que tomava toda a abóboda celeste (não confundam abóboda celeste com a boba da Celeste) e se tem alguém com esse nome, o trocadilho não é proposital, e então, olhando aquele vermelhidão sem fim pensei: é… parece que sangraram o mundo!! E patas na estrada, gritos e vivas ecoando, de vez em quando ouvia meu nome: Viva Bebé!! Confesso que me enchia de orgulho, sorriso até as orelhas, todo garboso no meu Pindolosca!! Mas tive de descer do cavalo enquanto os companheiros seguiam, precisava comprar um “tubo” fui rapidinho e comprei e um cara lá no boteco disse: passa daqui (disse passa mesmo como falamos com os cachorros), mas, como gosto muito dos cachorros não me senti ofendido, e disse mais, se manda seu cabeludo safado, montei no Pindolosca, nem preciso dizer que não foi preciso dar lhe com o cipó, pois, era a volta e logo alcancei a turma; dai a pouco Antonio Tochinha começa a passar mal, com o sacolejo a pinga fazendo outros efeitos além de perturbar os neurônios começou também a perturbar o estômago, alguém disse: tenho um sonrisal aqui mas, beber como? Não tínhamos copos, Zé Nunes disse, bebe no meu chapéu, chapéu de couro curtido pelo sol e suor, logo ali um riacho com água cristalina, coloca o sonrisal, depois de dissolvido, claro, Zé Nunes disse: bebe Tone, ele olhou pro chapéu, “apurou” as vistas e perguntou: é macarrão? Que macarrão, é sonrisal bebe e vc ficará bom, bebeu, ficou alguns segundos saboreando e de repente esbugalhou os olhos, ficou vermelho, Valin gritou: sai da frente gente! Todos se afastaram deixando o caminho livre, pois, quando o sonrisal chegou ao estômago, a pinga que já estava lá se sentindo a dona do pedaço não gostou do intruso e quis expulsá-lo, mas exagerou, o sonrisal voltou com muita velocidade e a pinga atrás, Vavá soltou uma gargalhada que dizem as boas línguas até hoje ainda é ouvida lá na serra, ecoa aqui, estronda acolá e essa gargalhada perdura... Minutos depois sem a bebida para atormentá-lo, graças ao sonrisal que indiretamente contribuiu para isso e assim continuamos a viagem de volta, me aproximei de Mané Tampa Suja e lhe falei baixinho: Chama Branco pelo apelido, ele me olhou , encarou e disse: “Cê” ta doido? Por que você mesmo não o chama? Eu respondi, porque ele é meu primo e chamar primo pelo apelido da um azar desgraçado, dá mais azar que xingar padre.. silêncio.. voltei a falar, Vai lá chama ele pelo apelido e mostrei o litro de pinga, ele pediu um gole, eu dei e voltei a tocar no assunto entregando a ele o tubo para se servir a vontade, virou uma talagada quilométrica e me perguntou: que apelido você quer que eu chame ? O mais novo aquele que Gilvam colocou e tem no disco do Golias que o Gilberto toca lá no boteco, ele calou-se, pensou.. Cutucou o jegue, se certificando da sua eficiência em caso de uma fuga básica e me pediu mais um gole, virou o gargalo me entregou e disse: Vou lá, eu cuidei de acompanhá-lo. Branco e Gilberto viajavam emparelhados, Tampa Suja se meteu entre os dois, estávamos chegando nos Gerais, alguns minutos e de repente ele olha para Branco e em alto e bom som desfere-lhe o apelido indesejável e cutuca o jegue, mas surtiu efeito contrário, o jegue não correu, brecou as patas dianteiras jogou os “quartos” pra cima, Tampa Suja saiu pelo pescoço do Jumento, logo se levantou e deu no pé e branco atrás, xingando e praguejando, o cavalo nos calcanhares do mulato, Vavá soltando gargalhadas, outros rindo baixinho até que, acuado, Tampa Suja pára debaixo de um pequizeiro, Branco faz o gesto de descer, mas recebe uma bola de pequi nos peitos, solta um gemido e um palavrão e Tampa Suja conhecedor daquele pedaço some da frente dele, o jegue nessas alturas já estava longe, ganha o Pitoresco e chega primeiro no Mato Grosso, encontra o jegue, xinga-o e fica por ali, na moita esperando os companheiros. Uma hora depois chegamos, soltando foguetes dando as boas alvíssaras, Gilberto abre o boteco e quem era de beber tratou-se logo de procurar um copo, tudo de graça!! Mas, de repente alguém diz: cadê Branco? cadê Mané Tampa Suja? Outro responde: é mesmoooo! Cadê eles? Gente, vamos procurá-los, vocês conhecem Branco, se ele o pega, o massacra e fomos nós a procura dos dois , Miguelzinho Purçano, especialista em rastros disse: foram por aqui e seguimos as pegadas dos dois, já dizia alguém mais pessimista: Branco matou ele, outro respondia, é, se pegou matou mesmo, Branco não dá moleza, cabra macho, aquele não tem medo de cara feia não e continuamos seguindo os dois, ou melhor, os rastros dos dois e fomos encontrá-los na passagem do rio Cajueiro tomando banho, Tampa Suja sentado numa pedra e Branco com uma bucha esfregando as costas dele, até hoje não se sabe qual o acordo que fizeram.Alguém arrisca um palpite?

Gildazio Vieira é Sebastianense e passou a infância no povoado Mato Grosso e atualmente mora na Suíça. Ele escreverá nessa coluna todos os meses. E-mail: gilvisan@sunrise.ch
Comentários
6 Comentários

6 comentários :

Márcia disse...

Mas, sr. Gildásio Vieira, afinal de contas, qual é o apelido de Branco? Será que passei batido e não percebi? Fiquei agora com duas duvidas: o apelido do moço e o acordo entre Branco e Tampa Suja...Achei uma judiaçção tambem o Pindolosca vira bife de japones.

Folha Sebastianense disse...

O apelido dele é segredo de estado e não pode ser revelado sob hipótese alguma.

Anônimo disse...

Ri e aprendi, com o Gil a gente sempre aprende... e ri também
Gardênia Montenegro

Anônimo disse...

Muito bom, engraçado e bem escrito!
He he he "já escutando os xingamentos, coisas horríveis, inadequadas para tímpanos sensíveis, cabeludo viado é o único xingamento que posso colocar aqui, os demais. Vixe!!!" Isso é muito bom...
Eu já tive o privilégio de ler As Aventuras do Batista, do mesmo escritor, e comprovo que este Senhor escreve muito bem tanto em rima quanto em prosa. Meus parabéns! Literatura de qualidade sem gastar um tostão!

Anônimo disse...

Linda cronicas meu flgado agradece ri bastnte
Maria Soares
Luanda Angola
Affica

nogueira disse...

Esta de parabens este jornal de Sebastião Laranjeiras,por resgata lindas histórias do passado,Fiquei super emocionado com alinda história do miudo,com a entrevista feita com ele la em mangabeira.pois foi deste jeitinho mesmo,ele vei para São Paulo e ficou ums poucos mes quando chegou de volta já não conhecia mas ninguem.tem a história do maxixi que Mãe dele pegou uma bacia de maxixi para rapa,e ele perguntou,mãe isso air é o xiuxi tem tambem o da enchada.Achei lindo o otografo
que ele deu para o vanzinho,muito bacana tambem
a história contada sobre o muro do fundo da minha casa pena que não teve nem uma foto do meu pai nando a entrevista,sobre o muro.
Parabens,estou aqui em São Paulo mas estou sempre acompanhando as noticias da minha terra.
Lucivando Nogueira Matos..

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