8 de julho de 2010

Crônica: As aventuras do Batista (Literatura de cordel)


As Aventuras Do Batista Em São Paulo
Gildázio Vieira


Um dia o Batista falou:
Chega de só trabalhar
Eu vou fazer uma viagem
Outros ares respirar
Pretendo ir a São Paulo
Tenho amigos por lá


Mas como ele sabia
Que em Sampa é perigoso
É ladrão trombando em ladrão
Cada um mais perigoso
Pensou em uma astúcia
Pois era astucioso


Pegou folhas de jornal
E com elas fez “dinheiro”
Amarrou mais de trezentas
Fez um pacote maneiro
“Se pensam que vão me enganar
“Engano eles primeiro”


Esse pacote de falsas
Em um lenço amarrou
E num dos bolsos da calça
Ele ali as colocou
De longe via-se o volume
De tão grande que ficou


O dinheiro de verdade
Pôs no bolso do calção
Porque ali é seguro
Contra ataques de ladrão 
E também nesse lugar
Ninguem vai meter a mão


Chegando na rodoviária
Por um ladrão foi notado
Que logo se aproximou
Dizendo muito educado:
Eu aqui sou segurança
Prá pessoas de outro Estado


E foi dizendo ainda mais
É preciso ter precaução
Pois vejo que leva dinheiro
E aqui tem muito ladrão
Mas o senhor estando comigo
Eles não atreverão


Pois sou muito conhecido
Os ladrões ja me conhecem
E sabem que “sou da lei”
E a ninguem aborrecem
E se um se atrever
Terá o lugar que merece


Batista disse, que bom
Chegou em boa ocasião
Pois trago muito dinheiro
Prá comprar um caminhão
E digo sinceramente
Tenho medo de ladrão


O ladrão disse, amigo
Não precisa se amedontrar
Me dê o seu dinheiro
Eu tenho onde o guardar
Aqui na minha pasta
Que é um bom lugar


O Batista lhe entregou
O pacote de jornal
E foram procurar um taxi
O ladrão muito cordial
Oferecendo cigarro
Bebidas e coisa e tal


Passando frente a uma loja
O Batista lhe disse então
Preciso comprar um presente
Prá filha do meu irmão
Ela é minha afilhada
E a tenho no coração


E tornou a falar
Com o ladrão sorridente
Que não tinha mais dinheiro
Para comprar o presente
E abrir o pacote ali
Não era conveniente


O gatuno mais que depressa
Do seu bolso retirou
Um bom pacote de notas
E ao Batista entregou
Dizendo: depois se acerta
“Não esquenta”, por favor,


O Batista entrou na loja
E um pouco se demorou
Olhou um monte de coisas
E claro, nada comprou
E olhando pela vidraça
O bandido não avistou


Saiu depressa da loja
Perguntou a um policial
Onde tomaria um taxi
A informação foi legal
E se mandou para a Penha
No carro lendo jornal


Com o dinheiro do bandido
Ele pagou a corrida
E ainda deu boa gorja
Pro chaufer na despedida
E ainda sobrou grana
Prá pagar muita bebida


O Batista ficou pensando
Do bandido a decepção
Quando abrisse o pacote
Ia ler a inscrição :
“Te peguei malandro otário
Vá mudar de profissão”


Lá em São Paulo o Batista
Se danou a passear
Foi até o Ipiranga
O “GRITO” foi dado lá
D.Pedro muito esperto
Escolheu bem o lugar


No museu do Ipiranga
Viu coisas interessantes
Viu o lenço do D.Pedro
E canhões ex-fumaçantes
Viu a calcinha da Princesa
Pendurada num barbante


Também foi ao Morumbí
Ver o nosso Coringão
Que perdeu para o Palmeiras
Bem naquela ocasião
Tudo culpa do juiz
Incopetente e ladrão


Na Avenida Paulista
Ficou maravilhado
Quanta riqueza e pujança
Num País tão assolado
Mas, o Coração do Brasil
Tem o seu significado


Lá na rua das palmeiras
Foi na Rádio Nacional
Ver o primo Edgard de Souza
Que lhe foi muito cordial
Depois foi ver o Zé Bétio
Lá na rádio capital


Mas na Praça da República
Teve de ficar esperto
É lugar de travestís
E trombadinhas incorretos
Viu o Edifício Itália
Que situa ali bem perto


Na praça da República
Deixou ali as amarguras
Que linda praça, meu Deus!
Que estranhas criaturas
E na Praça Ramos o Teatro
E sua linda arquitetura


Seguiu então seu caminho
Pelo viaduto do Chá
Entrou na Rua Direita
(outra mais torta não há)
Enfim a Praça da Sé
Pois precisava rezar


Entrou na grande igreja
Fez a sua oração
Pediu paz para o mundo
E chuva para o sertão
Mas, ao sair nas escadarias
Deu de cara com um ladrão


O Batista se trajava
Com chapéu de boiadeiro
As pessoas viam nele
Homem de muito dinheiro
Foi aí que o ladrão
Quis dar o golpe certeiro


O malandro disse, amigo
Me escuta por favor
Estou na rua a negócio
Sou um grande corretor
Se o senhor quiser eu te vendo
A estação do metrô


Batista disse, meu caro
Coisa mais linda não há
Eu estava agora mesmo
Sua beleza admirar
Dependendo das condições
A estação vou comprar


O gatuno disse então
Faço em dois pagamentos
O primeiro é agora
De um milhão e quinhentos
O outro de igual valor
Na hora dos documentos


Dinheiro não é problema
Disse ele de boa fé
É só ligar para o banco
O gerente manda um chaufer
Com uma maleta repleta
Da quantia que eu quiser


Mas o que eu quero saber
Isso muito me convém
E sem o que eu vou dizer
Nenhum negócio não tem
Quero saber se a sua mulher
Entra no rolo também


O bandido não esperava
E muito zangado ficou
E recebeu uma “pernada”
Pelas escadas rolou
Vá vender sua estação
Pro trouxa do seu avô


E tornou a entrar na igreja
O padre foi procurar
Porque não achava correto
Frente à igreja brigar
Senhor vigário, bom dia
Vim aqui me confessar


O Padre disse meu filho
Confessar é a minha missão
Mas aqui tem uma tabela
Cada pecado um barão
E se tiver mais de mil
Vai passar de um milhão


O Batista falou: danou-se!
De graça nem um sermão?
Esta cidade é de louco
Não vou ficar aqui não
Em cada esquina um viado
Em cada rua um ladrão


Mais de um mês em São Paulo
O Batista desfrutou
Andou por muitos lugares
Muito solado gastou
E voltou para o sertão
E suas façanhas contou 
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